Já não sou o menino de ninguém…

Já não sou menino de ninguém, pois já não há quem menino me veja agora que partiu a minha Mãe. 

O Amor infinito que só uma Mãe pelo seu filho pode ter já ninguém me vai poder dar, porquê quem tanto o tinha deixou de cá estar.
Nos Amores, na família, nos amigos, em todos a quem muito amor damos e de quem tanto recebemos, nunca o incondicional e imenso amor de Mãe em qualquer deles  encontraremos.

E a falta que deste Amor sentimos quando, qual barco no mar sem qualquer porto de abrigo, por fim sem ele infelizmente ficamos!

E se insuficiente fosse sentir esse amor um dia ausente, bastaria pensar no amor presente que pelos filhos se sente, para ter a certeza que amor de Mãe há só um, o da nossa e mais nenhum.

8 Anos

E se Amor houvesse assim que um dia tivesse concebido, nunca por mim me teria perdido de amores, ofuscado que desde logo estaria pela imensidão de tudo que para mim significas. E os tantos dissabores que teria assim evitado…

Que nunca me possas faltar meu Amor, pois sem mim continuas a ser flor enquanto sem ti eu nada quero ser.

Parabéns meu querido e amado Filho, que Homem bom desejo tanto sejas

Retrato

Hoje voltei a colocar o teu retrato no berço do meu quarto. Hoje voltei o teu sorriso a emoldurar, para que seja sempre essa doce imagem que veja ao acordar e também a última quando ao sono me entregar. Hoje voltei a recuperar o querer que já acreditava perdido de te ter junto de mim, não que tal desejo tivesse desaparecido, mas por resignado sentir que o nosso Amor tinha chegado ao fim. Hoje a louca da esperança ganhou razão suficiente para que recuperasse o acreditar que vale a pena o meu coração te entregar. Hoje sei que o teu Amor por mim despertou e eu por fim, nele e contigo, vou poder fazer mais do que apenas sonhar.

A pena de si só existir

Chorava copiosa na soleira de uma porta, noite alta e de temperatura amena, mas não tanto que justificasse tamanho desagasalho. Chorava e ele ali ao lado, até ao momento que cedeu e perguntou se podia ajudar.

Ninguém podia ao que parecia. Para qualquer solução que avançava havia sempre algo que contrariava, que a abortava.

Chorava e ele ali, ao lado, agora menos afastado e já preocupado em  auxiliar aquela sofrida alma, a encontrar-lhe caminho para onde parecia não haver destino.

Porque na realidade nenhuma solução mais havia. Afinal o que aquele autocomiserante ser queria era mesmos só um pouco de dó e companhia e aquele pouco que ele lhe dava era já, mesmo que singela, a solução que suficiente havia para o problema de que padecia – a solidão desolada de quem acreditava já nada significar.

Na sua generosidade por tempo ali ficou e falou, falou com conselhos de quem quer ao próximo bem, do Amor e da vida e de como vivê-la boa, plena e agradecida pelo valor que estar vivo só por si já tem. Arrancou sorrisos e outras lágrimas, votos de mudança, de força e  perseverança que tratou de reforçar com palavras e abraços até ir embora quando a aurora ameaçava romper.

Deitou-se satisfeito pelo bem que acreditava ter praticado ao ter mudado afinal o caminho desistente que o desespero e ausência de esperança de que aquele ser se rodeara.

Passadas umas quantas semanas, novamente no mesmo estado a encontrou, foi direito ao seu alcance para apurar porque para ali havia voltado e enquanto indagava por resposta não mereceu mais do que um – “Quem és tu?”. Desarmado sorriu da sua ingenuidade enquanto seguia o seu caminho, pensou que se calhar era por isso que se dizia que de boas intenções estava o inferno cheio. Nem que fosse um inferno como aquele, de viver apenas na loucura da pena alheia e de uma especie de esperança que se quer vã e de força de vontade nula, como aquela que ela sustentava, qual fio que aranha tece e que parecendo inexistente era afinal a única razão para que acreditasse num qualquer milagre, numa frágil razão que sustentasse a esperança de algo acontecer, algo a mudar. E talvez tivesse certo assim, porque na realidade era evidente que nada mais do que isso tinha.

A vida é demasiado curta para vivê-la pequena 

“Estás aí?” – perguntava para o vazio donde nem o eco respondia, também ele aparentemente seco de resposta. “Olá!!” – repetiu uma vez, duas e mais umas quantas, sempre em vão e sem retorno. Só aquele silêncio que tanto o angustiava se fazia sentir, só aquele silêncio que o enegrecia se desouvia e fazia recordar tantas noites como aquela, em que chamava e ninguém atendia.

“Se ao menos conseguisse querer mexer-me…” – pensava para consigo, mas sabia que não, que agora não, ainda estava preso naquele momento e à esperança do revelado até então. Havia visto luz ao fundo daquele túnel outrora negro e que por fim se iluminará…ou será que foi apenas ilusão sua? 

Que desamparo sentia por aquela luz ver agora silenciosamente apagada… ou será que nunca se acendera e apenas com o seu brilho sonhara? Ou será ainda que nunca se extinguirá e apenas a sua imaginação aguçada não a via brilhante como tanto precisava?

Nos  pensamentos encontrou a coragem – “Não posso ficar preso aqui!”, exclamou e num golpe rápido ergueu-se, deu dois passos e, por fim dali liberto, aos poucos se afastou.

“Não podia ficar ali, a vida é demasiado curta para que a possamos vivê-la pequena” e o opressivo momento então passou. Quando deu por isso, já era noutro que se encontrava…

Estragados

Não existe escuridão apenas ausência de luz. Não existem almas negras, apenas ignorantes ou preguiçosas para qualquer fonte de luz procurar.

Alguns limitam-se apenas a viver mergulhados na sua auto-comiseração, acomodados na sua pena, dissertando sobre a má-sorte, inadaptados e encontrando na inveja justificação para a inércia em viver de outra forma.

Outros ainda preferem resistir a qualquer luz e manter-se nessa presunção de necessidade de viver na escuridão, como se fado ou karma os obrigasse, com se fosse imposição decorrente de sensibilidade e intelecto superiores, quando na realidade o que os tolhe é apenas o medo do que a luz neles e a eles possa enfim revelar.

Não, não há escuridão, apenas ausência de luz e medo do que ela revele; e um dia, um dia provavelmente já tarde, vão perceber o quanto deixaram de viver pela luz não se terem deixado iluminar.

Não gosto de almas assim covardes, assim fracas, assim estragadas, não prestam.

Desdem fatal

E corria, e corria como se nada mais houvesse. A raiva que tinha dava-lhe toda a energia que precisava para qualquer obstáculo transpor e era assim o que fazia. A noite era densa, espessa, pouco deixava ver, mesmo pouco ou nada se via, e no entanto ele corria como louco sem parar. Nos campos a erva alta e os arbustos agrestes reconhecia apenas por lhe vergastarem a pele, deixando marcas que contudo nem conseguia sentir. Nos cascos as pedras que da turfa sobressaíam dor nenhuma lhe provocavam, como se ferraduras tivesse calçadas. Corria, corria, voraz, raivoso, corria sem parar com todos os seus músculos empenhados em fazê-lo ao objectivo chegar. Na sua mente só a raiva imperava e fervilhavam na mesma os pensamentos escabrosos que só o ódio que sentia, o desprezo que tinha por tudo que naquela situação, naquela dolorosa humilhação que o tinha lançado podia justificar. Que injustiça, que infâmia ter sido daquela forma roubado por ser tão inferior quando com ele comparado. Como é que tão fútil existência de tão vulgar e comum expressão, se pode ter atrevido a pilha-lo do seu sustento, do seu alento, de tudo que representava a magnificência do que ele era e atingira?! Como se atrevera a pensar sequer em apoderar-se da máxima expressão da sua superioridade?! “Vais sofrer, vais sofrer maldito por tal audácia teres tido! Vais não só arrepender-te de o ter feito como mesmo de ter nascido!” E assim, de motivo tão profundo acossado, tanto e tanto correu que depressa se acercou da guarida do seu infame usurpador. Não tinha sombra de medo ou pingo de receio sequer, sabia-se lúcido, tão claramente superior que acreditava o seu simples ali chegar ser suficiente para aquela ignobil e vil criatura fazer debandar. Ah, mas ele correria contudo atrás dela invocando todos os seus demônios até a apanhar e assim a fazer sofrer, a massacrar.

“Quem vem lá” – perguntou no então escuro uma voz rouca e cavernosa cujos acordes teimavam ressoar.

“Sou eu ladrão, sou eu farsante. Sou eu estúpido e vulgar ignorante. Estou aqui para reclamar o que ousaste roubar-me e por isso, por causa disso, vou-te matar” – disse entre dentes colocando-se em posição felina de ataque eminente, de olhos semicerrados entre a espuma de saliva que da sua boca escorria ora de raiva, ora do calor da correria que empreendera.

Diz quem viu que uma espécie de riso abafado foi o único som que se ouviu antes do silvo de ar cortado à pressa cruzar a escuridão. Silvo esse escutado imediatamente antes do som seco que a cabeça do irado desafiante despeitado fez ao cair oca na turfa ainda húmida da geada da noite alta.

E ali morreu, ali o seu corpo decepado foi a apodrecer deixado, sem que nada mais lhe fosse reconhecido, nem memória, nem feito. Mais história nenhuma restou para ser contada, apenas ficou uma lição – a de que por muito convictos que da razão estejamos, adversário nenhum se deve menosprezar, pois o maior ignorante é sempre o que julga todas as certezas ter e por isso gloria ou vitória alguma vez consegue conquistar…

Bebo em ti

A vida que me preenche e não sem antes de tu existires, desconhecia podia ter. As águas de mil rios que desaguam na minha foz, que me Inspiram e desafiam para serem  largadas no mar que tu para mim és. As ondas de todos esses mares que na costa da minha existência devolvem erosão e escavam infindáveis grutas onde me perco na imaginação. 

Bebo em ti, meu Amor, o ensejo de fazer tudo que nunca fiz mas que, sem o saber, sempre quis. As vontades mais secretas que agora tendo reveladas, não sabia tanto ter. Mas que desassossego extasiaste, que gulodisse constante por ti em mim sinto cada vez mais ter. O quanto te quero, o quanto te desejo, o quanto te admiro, toda e em tudo. O sentido que à minha vida trazes, pois viver é por si só motivo para contigo partilhar. Bebo de ti a razão do que quero ser, a inspiração para crescer maior e viver este Amor consolado que ambos queremos ter. Bebo em ti a vida meu Amor, como espero a bebas em mim também e, inebriados deste Amor, façamos dela algo que valha a pena ter vivido.

Desanuviar

Não significa fazer as nuvens desaparecer, mas antes ter a noção que elas existem, aparecem e tapam o sol, a luz, sendo por isso incontornaveis mas sempre temporárias, transitorias, ganhando no momento apenas a importância que então lhes resolvermos dar. 

Desanuviar é por isso muito mais o processo de relativizar o peso, o papel dessas nuvens e, consciente da sua perecidade, ter a paciência de deixá-las passar, de as relativizar, para que o sol, a boa luz, tão rápido quanto a vontade, volte a imperar. 

 

Afastar do Regresso

Regressa-se quando termina algo que obrigou, voluntariamente ou não, ao afastamento de onde estávamos.

Na perspectiva dos ciclos da natureza, como inevitavelmente ao afastar-nos  fazemo-lo sempre de algum momento ou circunstância onde prevalece o caos ou a ordem (e fazemo-lo na perspectiva de atingirmos precisamente o estado antagônico do ciclo), haverá sempre um regresso, seja ele do caos para uma qualquer ordem, seja desta para algum tipo de caos. O não haver regresso implica a permanência no estado de caos ou de ordem, algo sobejamente reconhecido como insustentável e conduzir sempre a uma qualquer forma de auto-destruição dos indivíduos. Parece claro que não podemos regressar ao que quer que seja, sem que também nos afastemos de onde quer que estivéssemos…

O que será então mais relevante na perspectiva da mudança de estado, o regresso ou o afastamento?

Se o regresso é sempre uma consequência do afastamento e o afastamento ocorre porque algum tipo de mudança o compele, sem dúvida é mais relevante o afastamento.

O afastamento é consequência de um factor disruptivo, o gatilho de saída, de partida de um ponto determinado no espaço, no tempo, seja no físico ou na mente, para outro qualquer ponto. E independentemente do motivo do afastamento, esse movimento terá sempre como efeito a mudança nos intervenientes em todas as dimensões e profundidade.

Por isso na realidade acredito não haver regressos, porque no espaço de tempo em que estamos afastados, inevitavelmente o mundo gira, somos influenciados, mudamos, tornamos-nos diferentes e assim, mesmo voltando ao ponto, ao momento ou circunstância de onde antes havíamos partido, de onde nos afastáramos, experienciaremos sempre algo diferente do que alguma vez foi.

Assim na realidade nunca há regressos, mas antes reinicios, pois mesmo quando regressamos donde nos afastamos estamos afinal a começar de novo…